letras manchadas de sangue,


                                frases esquartejadas,


                                                        espalhadas pelo chão...




sábado, 4 de abril de 2009

A Outra Vida - Parte 2 de 3

Foi ele o primeiro a perceber as duas mulheres que se chegaram para perto do caixão. Choravam aos baldes. À primeira vista qualquer um percebia que eram mãe e filha, pois eram parecidíssimas. A mãe mantinha-se a uma distância prudente. A filha, ao contrário, puxava a mãe pelo braço e chegava cada vez mais perto do caixão. Não demorou para que todos notassem a presença das duas. Quando a mãe percebeu, cochichou algo no ouvido da filha e puxou-a pelo braço. Foi o estopim. A filha, em um súbito acesso de desespero se jogou sobre caixão:

– Papai! Papai!

Todos se entreolharam. Dona Rita só percebeu o que estava acontecendo quando Davi se pôs a ajudar a mãe a tirar a filha de cima do caixão. Dopada pelos calmantes, não esboçou nada além de um levantar das sobrancelhas. Permaneceu sentada, olhando a cena, parecendo não acreditar no que estava acontecendo.

Quando Davi conseguiu tirar garota de cima do caixão, levou mãe e filha para um dos quartos e pediu que não saíssem sem antes falar com ele. Voltou para a sala e foi direto ter com Dona Rita.

– Quero falar com elas. – disse firmemente Dona Rita.

– Tia, a senhora não está em...

– Quero falar com elas agora! – e se levantou.

Foram direto para o quarto. Ao deixarem a sala, o buchicho tomou conta da casa. Todos se perguntavam como é que um homem como seu Bartolomeu poderia ter uma amante, e com uma filha daquela idade. Ninguém arredava o pé do velório, todos esperavam ver o desfecho daquela história. Foi quando dona Rita surgiu no topo da escada aos berros:

– Filho de uma puta! Cachorro! Você vai direto para o inferno, seu desgraçado!

O efeito dos calmantes acabou de súbito e tudo que se via em seu rosto era a ira. Dona Rita desceu as escadas aos pulos, se atrapalhando com os sapatos de salto alto. Foi direto ao caixão e encarou o rosto do morto, segurando-o pelo colarinho:

– Seu filho de uma égua! Se não estivesse morto eu te matava agora mesmo, seu corno!

Dona Rita deu um passo para trás e empurrou com toda a força o caixão, que foi ao chão. Os presentes tentaram segura-la, mas ela esperneava e gritava:

– Fora daqui! Todos vocês, fora daqui! Seus cornos! Vocês sabiam, com certeza sabiam! Porque ninguém me contou? Fora! Fora! – gritou com um sapato em cada mão.

No turbilhão de sua ira, arremessou os sapatos, as coroas de flores, os vasos, e tudo mais que encontraou pela frente em cima da multidão, que saiu em disparada. Um minuto depois só restavam: ela, Conceição, Davi e o morto. Foi quando ela caiu em si. Sentou-se no chão ao lado do caixão do marido e se pôs a chorar:

– Como é que você pôde fazer isto comigo, Bartolomeu? Logo você, que sempre foi tão honrado, tão honesto. Nunca pensei que você fosse capaz de me trair, quanto mais manter uma segunda família. O que o pessoal da igreja vai dizer? Você acabou comigo, Bartolomeu.

Não foi ao enterro. A cidade toda compareceu, não por amor ao morto, mas esperando outro escândalo. Segundo Davi, nem a segunda esposa e a filha estavam lá.

Desde o ocorrido o sobrinho passava todo o seu tempo livre com a tia. Foi ele quem se encarregou de toda papelada para passar para Dona Rita os bens do morto. Dona Rita insistia em deixar algum bem para a segunda esposa e a filha, afinal, mesmo bastarda ainda era filha de Bartolomeu. Duas semanas depois do enterro, Davi voltou para casa com um inventário de tudo o que o morto deixara.

– Tia, tenho boas e más notícias. – disse contrariado.

– Primeiro as más.

– Tio Bartolomeu tinha muitas dívidas. Os escritórios de contabilidade já não estavam indo bem quando titio ainda trabalhava, e agora, depois que ele morreu, os clientes estão indo embora. Os três escritórios estão dando prejuízo.

– E o que podemos fazer, filho? Eu não entendo nada disso.

– Sugiro que a gente desmonte os escritórios.

– Mas eu vou viver do quê, meu filho?

– Olha só, tia. Vocês sempre levaram uma vida de reis, não sei de onde tio Bartolomeu tirava tanto dinheiro. Ele devia ter outras fontes, mas não consegui descobrir. Sei que ele tinha uma casa na Dom Pinheiro que é até maior que esta, o aluguel deve ser uma fortuna. Amanhã vou até lá para dar uma olhada. E tem também a casa onde mora aquela outra mulher.

– Não podemos vender os escritórios?

– Ninguém compra um negócio que dá prejuízo, tia. Vamos vender os equipamentos e móveis dos escritórios para tentar pagar os funcionários. Se sobrar algum dinheiro, vai ser muito pouco. Creio que mesmo vendendo tudo ainda falte muita coisa.

– Isso mesmo, meu filho, os funcionários em primeiro lugar. Era o que dizia seu tio.

Conceição serviu então o jantar: sopa de ervilhas. Dona Rita desde o velório não era a mesma pessoa. Vivia despenteada, arrastava suas sandálias pela casa o dia todo. Não saía para nada. Sentava-se na cadeira em frente à televisão e ali ficava, como que esperando a morte. Se não fosse Conceição insistir, nem banho tomava. Tomaram a sopa em silêncio. Pouco antes das dez Davi foi para a casa, queria ir cedo ver a casa na Dom Pinheiro.

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