letras manchadas de sangue,


                                frases esquartejadas,


                                                        espalhadas pelo chão...




quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

A Vingança - Parte 3 de 3



- Não podemos. Vamos passar o resto de nossas vidas presos. Você sabe como são as cadeias? Sabe como é a vida de um presidiário?

- Sairemos em alguns anos. A justiça no nosso país é uma merda.

- Não, cara. Você está louco? Não quero passar um dia sequer na cadeia.

Ficaram calados. Pensando. As alternativas, as opções, os desdobramentos. Fora um crime passional, um ato desesperado e impensado. Mas ainda assim um crime. O dia já estava chegando e era preciso decidir o que fazer.

- Vamos enterrá-los! - resolveu Andréia.

- Enterrar? Ficou maluca? - Gustavo estava confuso.

- Sim! Enterramos os dois e sumimos com o carro do Hélio. Depois vamos à cidade, nós dois, para sermos vistos. Podemos comprar comida. Bastante comida, para quatro pessoas. Teremos um álibi. Basta sumir com o carro. Posso jogar o carro no barranco desta estradinha aqui de trás. Aqui nunca passa ninguém.

- Mas vão encontrar o carro mais cedo ou mais tarde - Gustavo procurava prever todas as possibilidades.

- Tem um rio embaixo. É fundo. Ele vai afundar e ninguém nunca vai achar. Deixo as janelas e portas abertas, ele vai afundar rápido. Depois damos queixa de desaparecimento.

- Andréia, a gente vai se complicar ainda mais. Não tem como a gente pensar em tudo, podemos nos dar muito mal.

- Deixa de ser idiota, Gustavo. Vai fazendo a porra do buraco que eu vou dar um jeito no carro. Mas tem que ser um buraco fundo.

Andréia não deu tempo para que Gustavo refletisse sobre o plano. Pegou as chaves do carro no bolso da calça de Hélio e ligou o carro.

- Cave logo a merda do buraco, caralho! - gritou, dando ré.

Gustavo ficou alguns minutos pensando. Depois se levantou e procurou a pá no depósito. Vasculhou o terreno. Encontrou um bom lugar no fundo da chácara, fácil de cavar, a terra bastante fofa.


* * *


Andréia voltou cerca de duas horas depois, suada. Gustavo também estava ensopado de suor, pelo exercício pesado. Calculou que levaria mais uma hora cavando e resolveu fazer uma pausa para fumar. Andréia andou até o lado da cova, se abaixou e acendeu também um cigarro. Se olharam em silêncio.

Cavar um buraco. Enterrar dois corpos. Não é o tipo de coisa que se faz todo dia. Gustavo não aguentava mais cavar. Fazia um esforço sobre-humano para continuar. Depois de tirar a última pá de terra, deitou do lado de fora do buraco para descansar.

- Acabei!


* * *


- Você cavou rápido.

- A terra era meio fofa. Mas estou só o pó, e com bolhas nas mãos.

- Ainda precisamos arrastá-los e depois cobrir com a terra. Mas nisso eu posso te ajudar.

- Preciso de água.

Gustavo pegou a garrafa de água na geladeira e foi para a varanda. Observava a paisagem. Desejava poder apreciá-la em outra situação, menos caótica. Bebeu um longo gole no bico da garrafa. Ouviu Andréia se aproximando.

- Está um dia bonito - disse Gustavo se virando para Andréia.

- Verdade. Não está um dia bom para morrer.

- Acho que gostaria de morrer em um dia bonito.

- Que bom! Assim você não vai ficar triste.

Andréia empunhava a arma, só agora havia percebido. Apontava para ele. Antes que Gustavo pudesse reagir, ouviu dois disparos. Ainda em pé, colocou a garrafa sobre a mureta. Não sentiu dor nenhuma, nem sabia se havia sido atingido. Levou as mãos ao peito. Estavam vermelhas. Ela não errou. Caiu de joelhos em seguida. Sentiu o sangue saindo de seu corpo, escorrer pelo chão e empapar sua camisa. Viu Andréia se aproximar e dizer alguma coisa. Sentiu ela erguer seu braço, e, segurando os dedos de sua mão sem vida, fazer um arranhão na pele dela. Em seguida, com as unhas compridas e bem-feitas, arranhou profundamente o rosto de Gustavo.


* * *


Agora ele sabia. Sabia exatamente onde havia errado. Tudo havia sido planejado, desde o convite para a viagem. Gustavo havia seguido exatamente o plano de Andréia, sem saber. Talvez ela quisesse ficar com o dinheiro do marido. Ou talvez tenha decidido matá-lo quando descobriu a traição com Regina. E, obviamente, ela não executaria ela mesma o plano de assassínio do marido, ou da amante. Andréia era uma mulher inteligente e sabia que o assassinato, puro e simples, seria muito óbvio. Para a polícia não seria tão difícil chegar até ela. Ela teceu um plano, onde acabaria com o marido e amante de uma só vez. Ele era seu bode expiatório. Toda a história surgiu à mente de Gustavo, de uma só vez. Quando ela arranhou seu rosto ele percebeu tudo.

Eram de marcas de uma luta. A luta entre um louco assassino e uma mulher indefesa. Depois de fazer o seu exercício matinal, a mulher voltou para casa. Encontrou os corpos do marido e da amiga. Antes de que pudesse fazer qualquer coisa, fora subjugada pelo amigo enfurecido. Sabia que seria morta também. Temendo por sua vida, a mulher luta contra o assassino, desesperadamente. Consegue lhe roubar a arma em um golpe de sorte e disparar duas vezes contra ele.

Gustavo ainda ouviu Andréia derrubar vários objetos pela casa, mais provas da luta que havia acontecido. E então Gustavo não viu e nem ouviu mais nada. Havia morrido, personagem de um plano que não sabia fazer parte. Não viu Andréia deixar cair a arma ao lado de seu corpo, e sair correndo à cidade pedir socorro.

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