letras manchadas de sangue,


                                frases esquartejadas,


                                                        espalhadas pelo chão...




quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

A Cliente - Parte 2 de 2

- Estou aqui em cima - gritou Vanessa de cima das escadas. - Espero que seja importante.

- É importante, sim - exitou. - Tive uma boa idéia para sua peça. Me dê só um minuto, preciso ir ao banheiro.

- Não esqueça de lavar as mãos - disse rispidamente.

Marcelo não foi ao banheiro. Antes de subir examinou todos cômodos da casa, um a um. Ninguém. Subiu as escadas calmamente e encontrou Vanessa em um dos quartos lendo um livro com a TV ligada.

- Não tenho o costume de trazer trabalho para casa. Seja breve - disse sem tirar o olho do livro.

- Para começar, gostaria de um pouco de sua atenção.

- Ora, meu rapaz, mostre logo o que tem para mostrar.

- Bom... - disse, caminhando em direção à Vanessa - Tive uma idéia para os outdoors. Uma idéia fantástica. Uma peça realmente agressiva, visceral.

Marcelo gesticulava como quem mostra uma paisagem. Uma das mãos materializando sua idéia, a outra mão oculta atrás do corpo.

- Espero mesmo que tenha melhorado suas idéias. Vamos, não precisa fazer suspense. Deixe-me logo ver o que tem em mente - disse apontando para a mão escondida.

- Sei que nem todos vão gostar - ele continuou, ignorando Vanessa - Mas tenho certeza de que esta peça pode chamar a atenção para qualquer produto, do mais fino ao mais grotesco.

Quando estava a um passo de Vanessa ele tirou a mão de trás do corpo. Não eram esboços. Ele segurava uma faca. A lâmina refletindo o olhar de pânico no rosto de Vanessa. Ela não teve tempo de reagir. Quando tentou se levantar sentiu a lâmina penetrando em sua barriga com um baque surdo. No bairro de casas grandes e ruas desertas o silêncio dominava a noite. Não houve gritos e nem pedidos de socorro.

Marcelo saiu da casa de Vanessa horas depois, mas ainda antes do amanhecer. Esperou acordado até as dez da manhã, quando ligou para seu ex-chefe.

- Guilherme? Bom dia. Só quero informar que enviei o material da nova peça para o seu email. Já está aprovado pelo cliente. Sim. Sim. Trabalhei durante toda a noite - e desligou.

Uma semana depois, todos observavam, perplexos, uma nova campanha publicitária nos outdoors espalhados pela cidade. Neles viam-se braços e pernas amputados ostentando pulseiras e tornozeleiras. Na avenida mais movimentada estava a peça principal, a jóia mais cara da coleção. Na foto podia-se ver um colar e um pingene em ouro maciço, com diversos diamantes incrustados. Ao lado, a cabeça decepada de uma mulher, Vanessa, o seu tronco disposto logo atrás sobre uma poça de sangue coagulado.

A cena de sangue e violência, o horror, chamava e prendia a atenção de quem quer que a visse. O brilho, a leveza e a beleza das jóias se ressaltavam diante da imagem abominável.

Era exatamente o que Vanessa queria.

Marcelo era realmente brilhante.

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